Mare Nostrum

#9 - À Morte e Aos que Viveram Além Dela

Depois do “choqueinicial do encontro com Kthyr e com razões suficientes para estranhos seguirem caminho juntos, começou uma viagem no deserto que se revelaria triste para os nossos aventureiros. O caminho infindável obrigou a uma pausa onde estes tiveram tempo para refletir um pouco mais sobre a sua situação.

Na manhã seguinte, Kyrez abordou Khtyr:

- Começamos a nossa relação da forma errada e venho ter contigo para me redimir… mas percebes porque o fiz, correto? – questionou Kyrez em jeito de desculpa. – Não tinhamos outra opção e eu, pessoalmente, tenho demasiadas razões para acreditar que o azar existe e que está à espreita para me magoar onde parece haver uma inocência inofensiva de acontecimentos…

- Percebo, sim. – afirmou calmamente Kthyr. – Não havia razões para confiarem em mim e, se viram o que viram e isso foi a origem do nosso encontro, é mais que compreensível. Eu, provavelmente, agiria de uma forma parecida… excluindo a parte dos genitais. Se estivessemos em posições opostas, eu deixaria os teus genitais tranquilos. – com isto soltaram os dois uma gargalhada que, apesar da solidão do deserto não a corresponder, tinha uma cumplicidade tácita e uma honestidade.

- A um novo começo? – perguntou Kyrez enquanto erguia a mão aberta em direção a Kthyr.

- A um novo começo! – exclamou Kthyr enquanto fez o mesmo. Apertaram as mãos e aí a sua relação recomeçou da forma certa. – Agora que temos mais confiança, posso dizer-te que a única coisa que me pareceu real em relação às minhas memórias foi um sonho que tive esta noite. É estranho explicá-lo assim, mas imagina o paraíso, o local perfeito onde a luz brilha de forma diferente…

- Certo! – estava Kyrez a olhar com curiosidade com um sorriso na cara.

- Agora imagina o oposto. O ambiente mais sádico e sombrio que podes imaginar. Um cenário de guerra, onde vez o sofrimento mais arrepiante e abominável.

- Certo… – Kyrez parecia confuso e incomodado.

- Agora imagina que esses ambientes intercalavam… paraíso. Inferno. Paraíso… inferno… Não sei o que significa, mas sinto que são memórias minhas. Estranho de dizer, não é? Talvez de uma guerra que tenha vivido na minha vida e dos momentos antes dela… não sei…

Nesse momento, Kyrez retira um papel do bolso e passa-o a Kthyr – Este poema diz-te algo?

“Sua mãe a justiça

Seu pai escuridão”

 

- Estes versos dizem-me algo, mas não como opostos. Seriam mais como complementar. Sinto que a minha origem está alicerçada à sua convergência. Eu sei que isto é um paradoxo, mas penso que nasci deste paradoxo… No entanto, não como pai e mãe que isto faz sentido para mim… desculpa ser confuso naquilo que digo, mas eu próprio o estou… no entanto, isto faz com que me lembre de um palco de teatro, mas não percebo o seu contexto…

Kyrez começou a enumerar peças de teatro. Apesar de todas elas aparecerem na memória superficial de Kthyr, nenhuma delas parecia criar uma ponte com o “palco” que ele tanto falava. Decidiram seguir viagem.

 

Passado uns largos quilometros pelo deserto, deram por si junto a uma entrada com duas estátuas idênticas e entre elas uma entrada.

- Qual é o plano? – inquiriu Kyrez. Quando o faz repara que Kthyr estava paralisado a permutar o olhar de estátua para estátua de forma frenética. Preocupado passa-lhe a mão à frente da cara e pergunta “O que se passa?!”

- Lembras-te do paradoxo? – perguntou Kthyr de forma distante. – É isto… paraíso, inferno, paraíso… inferno…

- Bem… vamos entrar? – disse Kyrez incomodado e confuso mais uma vez ao resto dos aventureiros. Davril continuava a ser uma incógnita, tirando os sinais que enviava aos seus companheiros.

Umber começou a tentar elaborar um plano. Acenderam tochas e, enquanto Umber e Kyrez ainda discutiam o plano, Kthyr decidiu entrar e descer os degraus que os afundavam debaixo do deserto, qual morto a ser enterrado de livre vontade. Os outros seguiram-no. Ao fim dos corredores sombrios iluminados apenas pela tocha encontraram uma porta. Kthyr, na irracionalidade provocada na ânsia de querer saber mais, espreitou pelo buraco que a mesma tinha. Esse erro custou-lhe caro. Uma flecha atravessou-se nele e a dor fez com que o mesmo não conseguisse gritar… ou que tivesse gritado sem conseguir expulsar ar dos pulmões e, consequentemente, gritasse um imenso silêncio.

 

Passada a dor, entraram na sala seguinte, onde se encontrava uma teia gigante. Um medo racional ou irracional fez com que eles decidissem queimar a teia. Nesse momento materializaram-se dois aracnídeos que, pelo seu tamanho, explicavam a dimensão daquela construção. Esses seres decidiram atacar a equipa e a equipa decidiu responder. A batalha foi, no mínimo, estranha. Uma aranha tombou com os golpes e outra parecia ter perdido o controlo com algo que parecia ser um ataque de riso, se se pode considerar que estes bichos desprovidos de intelecto refinado podem rir. Esta última aranha desapareceu nesse momento. Em simultâneo, Kthyr teve o seu primeiro vislumbre da existência de Davril para depois o ver a cair ao tentar abrir uma porta que libertou um gases. Davril tinha adormecido profundamente. Umber desloca-se para o tentar arrastar para um local mais protegido e nesse momento, o ser que se tinha desmaterializado materializou-se outra vez. Kyrez e o resto da equipa atacaram-no freneticamente, o que fez a existência desse ser acabar na materialização da sua morte no local.

Quando se preparavam para descansar, apareceu, serpenteando, um ser que por si só era feito de serpentes. De seu nome medusa, aproximou-se de Kyrez, aquele que mais precauções tinha tomado para não ser surpreendido e antes que este conseguisse golpeá-la, viu-se transformado em pedra. As últimas palavras que ouviu vieram de Kthyr a falar-lhe na cabeça para sair dali. Ali jazia um morto com a sua tentativa de se agarrar à vida imortalizada. Kthyr só teve tempo de agarrar em Davril e sair daquele espaço que imortalizava mortos, visto que Umber também sofrera do mesmo destino que Kyrez.

Quando Davril acordou, Kthyr explicou-lhe o ocorrido. Isto fez com que o halfling tivesse a reação imediata de tirar um espelho do bolso e dirigir-se ao local onde o perigo habitava. Esse mesmo perigo, ao ver o seu reflexo nesse espelho, transformou-se naquilo que transformava os outros. Passou a ser uma estátua. Davril partiu essa estátua para ter a certeza que ela não contrariava o seu destino e, num ato estranho, Kthyr recolheu uns fragmentos da mesma e guardou-os. O desespero começa a partir deste momento. Kthyr convenceu Davril que, apesar de estarem no meio do deserto, deveriam tentar tudo para reverter a morte dos seus camaradas. Conseguiram levar a estátua de Kyrez para as portas do deserto, mas o azar e a falta de força definiu que Umber acabara com uma sorte diferente. Quando deram por si, viram que tinham o corpo desse guerreiro que desafiava o mais corajoso com a sua loucura pela batalha no chão, partido em mil fragmentos. Sofreram sem o mostrar, porque não havia tempo para emoções. Tinham um barco para apanhar. Na cidade poderia existir solução para reverter o mal de Kyrez e o barco que os levaria lá voltaria em 5 dias.

A travessia do deserto lembrou o quão pesado pode ser arranjar forças para salvar uma vida. A persistência definiu a caminhada e passado uns dias encontraravam-se no templo da cidade, onde uma mulher do clero lhes disse que poderia salvar Kyrez da maldição em troca de uma quantia avulsa de dinheiro. Não havendo muito por onde discutir, Kthyr e Davril fizeram de tudo para juntar migalhas, centenas e milhares de migalhas que definiriam a continuidade do nosso aventureiro petrificado. Enquanto Davril tentou resolver o problema com promessas, negócios e eventos, Kthyr tentou resolvê-los com truques, ilusões e enganos que, sendo errados na sua base, serviriam um bem certo e só atraiam quem deixava o orgulho ganhar à racionalidade e apostava. Ao fim daquelas duas semanas e durante uma vigília que Davril teve a ideia de organizar para angariar fundos para salvar Kyrez, conseguiram “acordar” este companheiro de viagem.

 

Regressaram àquele labirinto da morte, contra o instinto de Kthyr. Este pressentia que algo iria correr mal outra vez, mas não iria deixar os seus camaradas ao abandono, ficando sozinho com o seu medo. Havia respostas a procurar e eles prometeram ajudá-lo nas mesmas. Teria que ir com eles. A escuridão intensificava-se à medida que iam descendo e, ao entrar numa sala, Kthyr acionou uma armadilha que fez com que uma parede o projetasse para um fosso. Kyrez tentou salvá-lo e para isso, fez-se voar, abriu uma porta e apoiou-se no rebordo da porta, sem ver que, nas suas costas, se encontravam duas lâmias. “Larga a corda!” – comandaram elas com um sorriso na cara. Começou mais uma batalha para os nossos heróis.

Enquanto Kyrez aguentava uma delas, a outra projetou-se para o fosso disfarçada de humana indefesa. Kthyr fez com que se expandisse a sua escuridão naquele espaço abaixo do chão e quis controlar a situação. Provavelmente teria tido mais sucesso se não estivesse preocupado em perceber se aquele ser era inocente ou se era uma armadilha. Não querer ter o peso de atacar alguém que não merecia demonstrou ser a sua maior fragilidade. Kyrez tinha-o avisado o que é que aquele ser realmente era, mas o nosso herói só se acreditou quando ela se revelou e o meteu às portas da morte. Khyr só teve tempo de pedir ajuda num grito arrependido por ser tão ingénuo e tombou no chão.

Ao ver o estado do seu companheiro e depois de derrotar a outra lâmia, Kyrez lançou uma corta em redor do monstro enganador e levitou-o. Davril enfrentou o seu medo e foi agarrar Kthyr à vida no exacto momento em que o seu coração se preparava para dar o último batimento. A lâmia encontrava-se agora em desvantagem. Tentou soltar-se, mas Kyrez foi mais astuto e largou-a de uma altura onde ela não se conseguiria recompor de imediato e investiu para cima dela.

Ao perceber o que se tinha passado, Kthyr deixou-se controlar pelo ódio. Quando a lâmia caiu, este fez questão de não só lhe dar o golpe final, como desfazê-la em pó. Não parou de a usar como alvo até sentir que a sua sede de sangue estava saciada. Era desnecessário, mas, de alguma forma, fazia sentido. Um bocado a medo, Kyrez mete-lhe a mão no ombro. Este vira o resto e a perceber a cara do seu companheiro, esboça um sorriso pacífico sem nenhum tipo de hostilidade e diz em gesto de brinde sem copo “À morte!”. Kyrez responde-lhe, completando uma frase que parecia já estar completa: “E aos que viveram além dela!”.

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tiago_msag

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