Mare Nostrum

#2 - À deriva
Água, Terra, Fogo e Mar

Bah, num momento a tua vida é abençoada por cerveja e anões com mais ovelhas do que juízo, só para que no próximo ela te tire tudo e acordas com um velho humano a fingir que é sereia na tua cara enquanto vomitas metade da água de todo o Oceano numa praia deserta num dos cantos perdidos do mundo. Ah, se não fosses tão cabra, o que seria de nós mortais. Provavelmente muito mais felizes. Enfim.

Nas estradas conheces muita gente “especial”, mas porra, se este grupo de náufragos não era especialíssimo.

Vê lá, o velho tinha um completo oposto, porque ao passo que um era careca, o outro tinha na cabeça tanta toalha junta que conseguias abrir um bordel na testa, e enquanto um andava constantemente a louvar a deusa Titty (abençoados sejam os seus seios) e a tocar de forma muito constrangedora em toda a gente, o outro nunca dirigiu a palavra a nenhum de nós.

Pelo menos o velho sabia alguma coisa sobre montar abrigos.

Conseguimos dividir alguns trabalhos. Eu e o velho ficamos de levantar alguma espécie de tenda e fogueira, e os outros 3 lá trouxeram comida e água.

Ainda me ri quando ouvi um dos humanos gritar que um caranguejo mordeu-lhe os pés. Foi a melhor parte do dia.

Depois de uma boa soneca e de encher a pança, lá entramos mais profundamente na floresta. Surpresa nossa de encontrar uma estátua no meio de uma clareira. Era um humano (Claro. Orgulho nunca lhes falta) a olhar não sei pra onde, e com a inscrição Ips numa. Embora esquisito, eram sinais de civilização. Pelo menos alguém esteve naquele buraco do mundo antes de nós.

Foi ao explorar o lado oposto à estátua que ouvimos uns barulhos a aproximarem-se. É claro que toda a gente, menos eu claro, esconderam-se no meio dos arbustos que nem coelhos.

Pois é que vem um urso gigante a correr desalmadamente na minha direção, e num piscar de olhos abocanhou-me o ombro e deu-me a maior chapada que já levei até hoje. Felizmente, e embora medrosos com tamanho urso, o resto do grupo ao ver o espetáculo que é, como podes imaginar, de ver a mim a lutar, viraram-no rapidamente em carne inanimada.

É claro que outro ainda maior apareceu pela floresta e quase que levou o halfling embora com ela. Mas pronto, nada que uma estroncada no bucho não resolve.

Passamos um mal bocado, mas nada que uma noite de sono não resolvesse.

Foi no próximo dia que descobrimos a nossa obsessão, num buraco recôndito da montanha.

De relance, não parecia nada de muito anormal, só uma gruta natural, mas logo encontramos a porta. Sim, essa porta.

Mas, oh diabo, se isso não foi o mistério número dois do dia, pois logo depois das rochas lá perto havia uma vila! Estamos salvos, pensamos! Mas é claro que a vida encontra uma maneira de te tirar o pouco que tens. Por sorte, um barco estava a ancorar nesse momento e claramente estampado na vela estava la o símbolo da pichota deles. Piratas. É claro.

Era a altura de começar a fazer planos em como sair desta ilha, e a melhor maneira seria lutar fogo contra fogo (ehe) e piratear os piratas.

No escuro da noite, o nosso halfling (quem diria que o halfling era bom em roubar coisas, ah?) la foi tentar encontrar uma solução para os nossos problemas, mas é claro que isso iria ser demasiado fácil, e o halfling desaparece na calma da noite. É claro que ninguém segue o plano, e o artista consegue ser preso e torturado. Fantástico, ah?

Foi ao ver os humanos a fazer exatamente a fazer a mesma coisa e a esperar um resultado diferente que eu decidi que a ilha deserta afetou-lhes a mioleira e que se era para sair daqui, não era a seguir estes humanos.

Bem,a cerveja está a acabar e tenho uma porta para abrir, por isso digamos que depois de fazer uma grande fogueira, um salvamento desesperado e um mergulho em água bem fresquinha, fomos parar a mar aberto com a adição de dois camaradas.

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#1 - A Fúria de Talos
A queda no paraíso

Negro o firmamento, as nuvens chocavam e os trovões ribombavam. A pequena embarcação tremia por entre as colossais ondas. A quietude da noite foi incomodada pela azáfama do pânico correndo para arriar as velas. A cadência celeste marcava o ritmo dos marinheiros, remavam pelos presentes, pelas suas famílias, pelo seu futuro.

Talos, na sua maldade, decidiu o destino de tal embarcação. Rasgada por um relâmpago, partida ao meio, selando o destino dos seus viajantes. Será algum merecedor de tal ira? Terá algum condenado todas aquelas almas?

Agora, na serenidade daquela lua cheia, cinco sobreviventes, perdidos à mercê da deriva, procuram esperança no horizonte. Tão longe, tão cansados, um por um, deixam-se render ao conforto das ondas, ao seu destino. Iged inexaurível, entre braçadas, recusa-se a desistir, é ele senhor do seu próprio destino.

Terra. Terra por fim. Cheguei ao paraíso…

O calor do sol matinal desperta o único náufrago, olha em redor e encontra cinco inertes vultos. Apressa-se. Estariam eles vivos? Como poderiam? Todos menos um, expiram o oceano. Todos menos um voltam a si. Felizes que estão, nunca viver soube tão bem.

Naquela praia, banhados pelo Mar de Gyll, começam um novo capítulo. Totais estranhos juntos sob a mesma adversidade, juntos perecerão, juntos perseverarão.

Chegaram. Chegaram ao paraíso…

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#0 - Prólogo
A Viagem

Iça essa âncora! Alija essa adriça! O vento está de feição, vamos zarpar marujos!  berrava Gilsi por entre a sua calejada barba sombria.

Entre a azáfama matinal, as cordas puxadas, os barris carregados, os passageiros instalados, tudo estava pronto para a viagem, a centésima travessia do Unsinkable II, Mar de Gyll, seu caminho, Beybrook seu destino.

No caos do mar selvagem, tudo faz sentido. Pelas suas próprias regras, as ondas definem uma sinfonia para quem as desafia. Entre as suas imensidões azuis, existe apenas uma hierarquia, uma lasca de madeira rasga aquela carne deixando um corte efémero por onde passa. Será que os olhos do futuro conseguirão perceber onde ficou essa cicatriz?

Naquele horizonte inalcançável todos os sonhos se concretizam: o mercador enriquece, o nobre enaltece-se, a família prospera, o bardo trova odes intemporais. 

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