Mare Nostrum

A História do Nunca

Esta história é real. Acendam-se as luzes!

(O público passou a estar mais iluminado que o palco. Desta última posição só se via um vulto de costas direitas que expandia os braços enquanto falava com uma voz colocada.)

A escolha é mais perigosa do que muitos pensam. Ela é feita com base no irracional da nossa racionalidade. A maior parte dela é baseada na construção da nossa personalidade que, por sua vez, é baseada maioritariamente em situações nas quais não tinhamos escolha. Esta história é sobre os paradoxos do destino, as memórias e, acima de tudo, sobre as escolhas que tomamos e que nos fazem ser o que somos. Também é sobre as escolhas que nunca tomaríamos até ao momento em que foram tomadas. Chamo-me Nasyan, serei o vosso anfitrião esta noite e irei contar-vos esta parte da vossa memória, porque este fragmento é algo que a mim diz respeito.

Depois dos nossos aventureiros descerem mais um piso daquele habitat de loucura planeada, depararam-se com uma sala onde se encontrava um comando que mudava as posições das dimensões por entre o vácuo. Já reparei pelo vosso olhar que estão confusos, perdidos nas minhas palavras até. Foquem-se em senti-las mais do que em intelectualizar aquilo que vos digo. Ao organizar as peças do comando, eles perceberam que o arranjo definia passagens e, ironicamente, a primeira foi a saída para o piso seguinte.

No entanto, a curiosidade é algo demasiado perigoso nos dias que correm e esta, qual gravidade amaldiçoada, puxou as personagens desta demanda para caminhos onde o mundo não se encontra.
Inicialmente era o inofensivo de uma estalagem aborrecida e segura. Depois passou a ser o estranho das salas onde o vazio ocupava, paradoxalmente, a maior parte do espaço. Depois surgiu o melancólico representado no fantasma que pediu a Kyrez o corpo emprestado para ser abraçado por Davril. Nenhuma destas escolhas contemplava um real perigo e nada havia de realmente aversivo para afastar psicologicamente aqueles que se aventuraram.

Havia, no entanto, uma sala com um baralho de cartas. O fruto proibido estava diante de Davril e de Kyrez, sinalizado por um aviso imperativo para não ser tocado. É nestes momentos que a nossa mente mais no prega partidas. O que teria um baralho de tão especial? Qual seria o perigo…ou valor das cartas? Indo ao encontro da sua natureza, Davril retirou a primeira do topo. Nesse momento, percebeu o seu erro.

- Esta carta deixa-nos escolher um evento e faz com que ele nunca tenha acontecido… estamos a mexer com forças que não iremos controlar… – disse Davril – “É melhor deixá-la aqui.”
Neste momento entra Vismund e Kthyr na sala, preocupados pela demora. Vismund pergunta o que estão a fazer naquele local ame Kyrez explicou aos dois recém-chegados àquela divisão.

- O que estás a pensar fazer com essa carta? – perguntou Kthyr a Davril com ar desconfiado.
- Deixá-la no local onde a encontrei… – respondeu Davril de forma seca.
- Não! Essa carta é algo que pode mudar as nossas vidas! Pode mudar a minha vida… Eu… não me lembro de quem sou… Eu preciso de saber quem sou! – Kthyr esta claramente alterado enquanto estas palavras eram ditas. Estava a metros dele a possibilidade dele se recuperar, dele ter o traço que é mais característico de cada ser pensante: a sua personalidade.
- Eu vou deixá-la aqui e nenhum de nós a vai levar. Aqui ela fica protegida e…
- De quem?! Nós não chegamos cá?!
- A chave está connosco!
- E quem a criou não pode voltar a criá-la?! – de seguida Kthyr inspirou o mais fundo que conseguia, fechou os olhos e tentou acalmar-se. De forma mais calma disse de seguida para todos – Por favor… preciso mesmo desta oportunidade. É aquilo que sou que está em jogo. Vocês conseguem pôr-se na minha pele, certo?
- E se fores mau? Não podemos arriscar! – respondeu Vismund de forma distanciada emocionalmente.
- SE FOR MAU SOU EU!!! NÃO UM SER SEM MEMÓRIAS!!!
Ao ver a situação, Kyrez fala delicadamente para todos:
- E se rasgarmos a carta em quatro pedaços? Assim só a usamos quando todos aceitarem.
Sim, parece-me uma boa ideia! – exclamou Kthyr, esperançoso. Voltava a haver possibilidade de recuperar a sua vida.

- Saiam. – respondeu Davril.
- Qual é o motivo? – perguntou Kthyr.
- Eu sei o que estou a fazer.
- E não vais explicar?
- Não. Saiam!

Kthyr lê os pensamentos superficiais de Davril e diz-lhe:
- Vais dizer-me agora porque pretendes deixar a carta aqui?
- Sai da minha mente… – Davril estava ainda mais seco a falar.
- Diz o que pretendes fazer e eu não vou mais a fundo.

- Tu nunca nos conheceste! – disse Davril e finalizou-se aquela realidade perante a cara de choque de Kyrez e Vismund.

(Kthyr chega-se dois passos à frente e a sua cara é finalmente revelada. Está com um sorriso aberto na cara enquanto contempla o público, como se os conhecesse a todos.)

Sentir é a melhor forma de fingir. Obrigado por acreditarem. Esta história não é real. Apaguem as luzes!

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paulo_nogueira_ramos

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